domingo, 14 de março de 2010

Escravos e libertos: a utilização dos negros nas guerras do Paraguai e civil estadunidense

Durante a segunda metade do século XIX, na América, ocorreram tanto no norte, com a guerra civil estadunidense, quanto no sul, com a guerra do Paraguai confrontos que se valeram grandemente da força dos homens pobres e em especial dos negros livres e escravos dessas regiões.
Tanto os exércitos brasileiros – e paraguaios também – quanto os estadunidenses utilizaram nas guerras os negros libertos e os escravos. A população brasileira, alguns anos antes da guerra, era de quase dez (10) milhões de habitantes, e aproximadamente um quarto dessa população era constituída de escravos . Nesse mesmo período na região norte do continente ocorria diversos movimentos na tentativa de estabelecer o fim da escravatura, principalmente, na região norte dos EUA a qual já possuía diversos estados onde não se utilizava dessa forma de mão-de-obra em oposição ao sul que utilizava fortemente essa forma de trabalho em suas plantations. Também nos EUA a população escrava constituía grande parte da sociedade chegando a atingir em 1860 um décimo da população total.
Nos EUA, durante o ano de 1860 acontecem dois fatos importantes referente às questões políticas, o primeiro é eleição à presidência de Abraham Lincoln, e o segundo, é a oficialização da secessão da Carolina do Sul do restante do país. Nesse mesmo ano ocorre o Congresso de Montgomery no Alabama e mais cinco estados juntam-se à causa da Carolina do Sul criando os Estados Confederados da América.
Durante a década de 1850 o Brasil envolveu-se em diversos conflitos na região do rio da Prata, um deles foi à declaração de guerra a Argentina em 1851, por esse governo não ter reconhecido a independência do vizinho Uruguai. O governo brasileiro obteve apoio de dois poderosos lideres políticos argentinos, inimigos de Rosas – então presidente –, eram eles: Justo José de Urquiza e Bartolomeu Mitre. Em 1852, o Brasil e seus aliados derrotaram e depuseram Rosas.
Com a adesão do Brasil no bloco que derrotaria o Paraguai, mostrou-se a debilidade na formação de um exército conciso, haja vista que o exército brasileiro era formado pelos contingentes da polícia e pela Guarda Nacional das províncias. Um ano após o início da guerra fazia-se necessário à convocação de voluntários, então Dom Pedro II assinou um decreto criando assim os Corpos de Voluntários da Pátria , no mesmo ano o termo voluntário passou a ser mera figuração, pois, a convocação passou a ser forçada .
Com o início da guerra civil aumentou muito o número de escravos que fugiam para o norte em busca de guarida nas milícias do norte. Um ponto importante que assemelha a guerra civil estadunidense à guerra do Paraguai é o recrutamento forçado que ocorre tanto do lado dos Confederados quanto do lado da União com o prolongamento da guerra.
No sul do continente o próprio D. Pedro II dava o exemplo libertando todos os escravos das fazendas nacionais para lutarem na guerra, de modo que pudesse aumentar o efetivo do exército brasileiro.
Ambas as guerras foram em grande medida a guerra de homens ricos e poderosos, e lutas de homens pobres e sem poder, segundo Toral no Brasil

além dos limites estreitos da cidadania todos são compreendidos como voluntários, bons para a guerra. Os mais aquinhoados têm mais condições de escaparem; os mais pobres recorrem ao auxílio dos matos. O que menos dispõe de meios de resistência é exatamente o escravo, que troca à enxada pelo mosquetão, deixava de obedecer ao capataz e entrega sua vida ao senhor oficial

e segundo Morison e Commager nos EUA “em ambos os lados, homens que pelas regras do recrutamento forçado, teriam de servir no exército, poderiam contratar um substituto – geralmente, um homem pobre e sem trabalho – para lutar em seu lugar”.

A efetiva utilização dos negros e escravos nas duas guerras.

No caso brasileiro os negros foram utilizados como linha de frente da guerra ou como moeda de troca numa possível fuga do alistamento por parte de homens “bem nascidos”, desde princípios da guerra – estima-se por baixo que 5,5% do efetivo do exército eram compostos por negros. Em grande parte os negros e escravos serviam aos “senhores oficiais” como se fossem empregados particulares dos mesmos.
Ao norte do continente os escravos eram usados quase que da mesma forma que no sul do continente, porém, no início da guerra os escravos e negros libertos eram utilizados em tarefas secundárias na lógica de guerra porque não deveria dar armas nas mãos dos escravos e nem dos negros libertos. Outro ponto dissonante em relação aos dois países citados é quanto à utilização dos escravos. Nos EUA havia diferenças entre sul e norte do país, tendo o norte utilizado escravos desde meados de 1862 de forma efetiva nos combates e o sul utilizando-se dos escravos apenas nos tempos finais da guerra.
Os escravos e negros livres eram vistos pelos sulistas estadunidenses brancos como inferiores, e por isso como mera mercadoria não podendo ter nenhum direito como cidadão dos EUA. Essa visão era aceita amplamente no sul pelas forças dominantes devido à própria lógica escravagista que se impunha na região. No Brasil havia a discriminação interna por parte das regiões sulistas e externa que provinha diretamente do Paraguai

na época da guerra (1864-1870), no Paraguai, o negro era, antes de tudo, o inimigo. O exército brasileiro era o exército macacuno, e seus lideres, segundo a propaganda lopizta, macacos que pretendiam escravizar o povo paraguaio, conduzindo-os da liberdade à escravidão


embora o Paraguai também utilizasse de escravos e negros livres na guerra.
As disputas pelo poder governamental nos EUA sempre foram constantes bandeiras do sul e do norte, no entanto, com a proibição inglesa do tráfico negreiro essa disputa se acirrou ainda mais, tendo em vista que o sul escravagista defendia o prolongamento da escravidão, já o norte de grande influência liberal – e que havia fundado poucos anos antes o Partido Republicano – e progressista de visão ideológica contraria a escravidão, como tão bem representa o discurso do até então candidato à presidência Abraham Lincoln em Quincy no dia 15 de outubro de 1858, dois anos antes de ganhar as eleições

a diferença entre os homens que crêem que a escravidão é uma injustiça e os que crêem que o não é. O Partido Republicano crê que ela é injusta; nós cremos que é uma injustiça moral, social e política. Cremos que é uma injustiça que não se limita aos habitantes dos estados em que existe, mas que é uma injustiça que na sua tendência, quando menos, afeta a existência de toda a nação. Precisamente porque cremos que é injustiça como qualquer outra, na medida em que podemos evitar que aumente, e tratamo-la de tal modo que com o correr do tempo haja alguma esperança de que desapareça...
Acrescentarei que se há alguém entre nós que não crê que a escravidão é injusta nos três aspectos que mencionei, ou em algum dos três, esse tal está fora do seu lugar e tem de abandonar as nossas fileiras. Se, por outro lado, há no Partido Republicano algum homem que se irrita com os inevitáveis frutos da sua atual existência, que se irrita com as garantias constitucionais que hoje lhe servem de salvaguarda e que quer proceder com desconhecimento delas, este também está fora do seu lugar se permanecer entre nós.

A guerra apesar de dura e cruel possibilitava aos escravos vislumbrar a liberdade, pois, os escravos que participassem da guerra quase sempre eram libertos “a guerra representou uma oportunidade de melhorar de vida, de deixar de ser propriedade de outrem, ou mão-de-obra barata, para ser homem de respeito, soldado, defensor da pátria” . Isso tanto no Brasil como nos EUA. Contudo, não quer dizer que os escravos só obtiveram a tão sonhada liberdade com a precipitação das guerras, pois, a vida cotidiana dos escravos esteve sempre entrelaçada de múltiplas expressões de resistência, como: recusa ao trabalho, diminuição do ritmo de produção, sabotagem das ferramentas utilizadas no trabalho, furto e compra da liberdade – para os escravos de ganho ou os que trabalhavam em funções que exigissem especialização. A mais difundida, porém, continuava a ser a fuga.
As fugas de escravos no Brasil ocorreram desde os primeiros tempos da escravidão, todavia, no século XIX essas fugas se intensificaram pela própria pressão interna como também pelas forças da Inglaterra e do capitalismo em expansão. No Brasil admitia formas variadas, mas, a procura por quilombos e quilombolas eram as maiores, quando não refugiavam-se na casa de alguns negros libertos.
Na parte norte do continente as fugas quase sempre se davam para o norte dos EUA e influenciadas por romances como o “Correndo mil milhas rumo à liberdade” e com a ajuda de membros da estrada de ferro subterrânea que possuía a influência direta das sociedades abolicionistas do norte e que a construíra e mais ou menos a estruturara em meados de 1850. Essa rota conduzia os escravos fugitivos para o norte do país e para o Canadá.
Nos EUA a abolição da escravatura só ocorreu em 31 de janeiro de 1865 com o pedido oficial de rendição sulista feito pelo general Robert Lee ao general nortista Ulisses Grant. Assim terminava a guerra civil estadunidense que iria impor a lógica liberal e capitalista do norte ao restante do país. A guerra do Paraguai só terminaria cinco anos depois com a vitória dos aliados, cujo comandante brasileiro era o Conde D’eu que abolira a escravidão naquele país em 1869. O término da escravidão no Brasil só se oficializaria no ano de 1888 com a promulgação da Lei Áurea, pela princesa Isabel.

1 GORENDER, Jacob. O escravismo colonial. São Paulo: Editora Ática, 1978.
2 MARQUES, Maria E. C. Magalhães. A guerra do Paraguai: 130 anos depois. Rio de Janeiro: Relume Dumara, 1995.
3 SCHULZ, John. O exército na política: Origens da intervenção militar (1850-1894). São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo, 1994.
4 TORAL, André. Imagens em Desordem: Iconografia da guerra do Paraguai (1864-1870). São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo, 2002.
5 MORISON, Samuel E. e COMMAGER, Henry S. História dos Estados Unidos da América – Tomo II. São Paulo: Edições Melhoramentos, s/d.
6 TORAL, André. op.cit., 2002.
7 MORISON, Samuel E. e COMMAGER, Henry S. op.cit.. s/d.
8 MARQUES, Maria E. C. Magalhães.op.cit., 1995.

Nenhum comentário:

Postar um comentário