domingo, 21 de março de 2010

O Humano na Esfera do Divino: O canto X do Inferno de Dante

A figura de Dante Alighieri sempre traz à tona a imagem do homem medieval em sua totalidade: sua vida e obra trazem elementos tanto do homem aristocrata quanto o camponês, seja o aspecto político, seja o cristão. Dessa forma, dentre as diversas faces em que os especialistas se focam no estudo de Dante, o artigo visa identificar em sua poesia aspectos da representação humana na Divina Comédia através de análise do canto X do inferno.

Antes de ir para a análise propriamente dita, vale ressaltar em que meio o poeta vive. Nascido em 1265 na cidade de Florença, Dante vive um período de efervescência na Europa, uma vez que sua cidade natal já havia passado por um processo de crescimento surpreendente, agora sofria de uma instabilidade política proveniente de rixas entre as grandes famílias florentinas, mas, além disso, das disputas entre a Igreja e o Sacro-Império Romano Germânico.

Essa disputa se dá mais especificamente a partir do momento em que os Staufen sobem ao poder no Sacro império e passam a almejar um maior controle do Império sobre a Itália, território Germânico no período, entretanto, sob forte influência do papado. Dentro dessa disputa é que se formam duas facções que brigam nas altas esferas da aristocracia nas cidades italianas, inclusive Florença: os guelfos e os guibelinos.

Dentro da cidade de Florença, as duas facções brigariam principalmente na segunda metade do século XIII, período que engloba os primeiros anos de vida de Dante Alighieri, de família guelfa, ou seja, partidária da influência papal na cidade, mas que, entretanto, não possuía grande influência política. Dante cresce em um ambiente no qual sua família passa por dificuldades financeiras, entretanto conclui sua educação básica do período.


Na última década do século XIII Dante entra para a política, e se torna um guelfo de grande atividade. Nesse momento os guibelinos são expulsos da cidade, entretanto tem início mais um conflito entre duas facções: os guelfos se dividem entre bianchi, e neri, cada qual representando respectivamente ou uma burguesia, nesse contexto se referindo a comerciantes bem sucedidos financeiramente, do lado oposto, a aristocracia e as grandes famílias já decadentes financeiramente, mas portadores de certo prestígio.

Diante dessa disputa, cada vez mais hostil entre ambas as partes, toma-se, em 1295, a decisão, proposta por Dante, simpatizante dos bianchi, de se expulsar os membros mais exaltados de cada partido. Nesse momento um grande amigo de Dante, Guido Cavalcanti, será levado a exílio. Nessa medida os neri são os mais afetados, entretanto, quando da virada do século os brancos são expulsos da cidade de Florença, e assim Dante é exilado.

É nesse exílio que Dante escreve sua Divina Comédia, obra que, segundo Salvatore Viglio, traz a tona todo o mundo em que Dante vive. De caráter enciclopédico, apesar de se tratar de uma obra poética, a Divina Comédia possui como mérito não apenas retratar o divino. A viagem de Dante aos três destinos da alma humana é uma viagem em busca dessa alma humana, do espírito do homem medieval, e, em sentido mais amplo, de um homem universal.

Dentro dessa perspectiva, de uma obra que capta o espírito do homem medieval, é que a Divina Comédia deve ser tratada não apenas pela crítica literária. Admitindo, segundo Erich Auerbach, autor de base para a análise que segue que o homem é um ser sensível e que busca na Europa nesse momento através da representação artística uma reprodução daquilo que está gravado em seu ser, em seu espírito, então é possível captar na obra de Dante Alighieri a figura desse homem medieval em todas as suas facetas para, a partir daí, tornar possível uma melhor compreensão acerca dos paradigmas que cercavam o pensamento do homem desse período.

Quando Dante, no canto X do inferno, atinge o círculo dos hereges e dos epicuristas, lá ele encontrará dois interessantes personagens, em situações distintas: Farinata Degli Uberti, e Cavalcante di Cavalcanti, pai de seu amigo Guido Cavalcanti. O primeiro surge em meio a um diálogo entre Dante e Virgílio, surge altivo, imponente. Reconhece no falar de Dante sua estimada Florença, e inicia com Dante um diálogo focado naquilo ao qual ele estimava: a política.

Em meio ao diálogo, outra interrupção: entra em cena Cavalcante, já em posição oposta a de Farinata: abatido, pergunta ansioso pelo destino de seu filho, quer saber se está vivo ou morto. Através da resposta de Dante, Cavalcante conclui erroneamente que seu filho está morto, e cai de volta a sua cova, desesperado. O diálogo entre Farinata e Dante é retomado, quando Farinata profetiza a Dante seu exílio de Florença e explica o motivo de desespero de Cavalcante: aqueles que estão nesse círculo enxergam o futuro distante e o passado, mas o presente eles não podem enxergar.

A altivez de Farinata, a resposta de Dante a Cavalcante e a verdadeira situação dos danados nesse círculo do inferno são objetos de diversas interpretações sobre o canto. A distinção entre o momento de ambos os personagens trazem o questionamento acerca de quem é o verdadeiro danado pelo castigo do círculo. Antonio Gramsci, nos seus Cadernos do Cárcere dará o destaque para Cavalcante, ele é o verdadeiro sofredor das agruras do círculo. Ao menos é aquele que está sendo mostrado a sofrer no canto. Quanto a Farinata, lhe é reservado apenas a discussão no âmbito da política. Entretanto, segue o trecho (Versos 40-51):

“Quando à sua tumba aproximei-me mais,
Olhou-me um pouco e, quase desdenhoso,
‘Quem foram”, perguntou, ‘teus ancestrais?’

E eu, já de contenta-lo desejoso
Não lho escondi, mas tudo revelei,
O que tornou-o ainda mais cenhoso.

‘Tão duros na adversão à minha grei
Foram’, disse ele, ‘e a mim e aos meus parentes,
Que, por duas vezes, eu os expulsei.’

‘Expulsos’, respondi, ‘mas renitentes
Foram, voltandu duma e doutra prova,
E essa arte não tiveram vossas gentes.’”

Logo após esse trecho, Cavalcanti surge interrompendo o diálogo, e faz sua participação no canto. Quando da retomada do diálogo entre Dante e Farinata, da forma como abaixo se segue (versos 73-78):

“A outra grande alma, por cuja proposta
Tinha eu ficado, não moveu o peito
E o colo, nem mudou a feição composta;

E disse, retomando o meu conceito:
‘Se ignoram daquela parte a natureza,
Isso mais me atormenta que este leito;”

Nesse ponto continua a fala de Farinata, entretanto é nesse ponto que se mostra a pena de Farinata. Homem político, líder guibelino de período pouco anterior ao de Dante, possuía grande estima pela sua cidade natal, Florença, na qual era prioridade em sua vida política. Entretanto, ao descobrir que seu partido fora exilado e não voltara mais a Florença, para ele isso é motivo e maior sofrimento que o inferno. Nesse momento, segundo Erich Auerbach, fica implícito que essa dor de Farinata se dá devido à sensação de impotência em relação ao que ocorre entre os vivos. Ele ainda possui em sua essência suas características de quando era vivo: ainda é o líder político, que preza a honra e o caráter,e é esse o motivo de sua altivez. Não despreza o inferno com seu porte, mas é esse o destino que Deus deu a ele, não apenas a ele como a todos os mortos.



Dante segue, na Divina Comédia, uma concepção do Além na qual, não apenas no inferno, mas também no purgatório e no Paraíso, aquilo que o indivíduo costumava ser quando vivo persiste em sua alma depois de morto, de forma acentuada. Assim, estão em um contexto de imutabilidade, quanto ao destino de suas almas, final de contas, sofrerão aquela punição por toda a eternidade, ou ao menos até o dia do juízo final, quando suas almas se juntarão aos corpos novamente. Porém ali possuem um corpo espectral, o além possui uma historicidade, um curso de possíveis mudanças. Afinal, não está lá Dante, um humano vivo!

Nesse contexto, não apenas Farinata reproduz a força de seu caráter, sua nobreza, que se torna maior do que nunca no inferno, mas Cavalcante demonstra ali a admiração pelo seu filho e pelo espírito humano. Quando de sua participação no canto, segue um trecho abaixo (versos 55-63):

“Olhou-me à volta, parecendo intento
A achar quem estivesse ali comigo
E então, lhe sucedendo o desalento,

Disse, em pranto: ‘Se neste desamigo
Cárcere vais por primazia de engenho,
Por que o meu filho não está contigo?’

E eu respondi: ‘Não por mim mesmo eu venho:
Aquele que lá está meu rumo ordena,
Por quem quiçá, evadia o teu Guido empenho’”

Nessa tradução de Ítalo Eugênio Mauro, a palavra “disdegno” foi traduzida como empenho, no lugar de sua tradução “desdenho”. O desdenho do sujeito em questão, Guido Cavalcante, renomado poeta da época e amigo de Dante, é Virgílio. Há muitas teorias acerca do que significa esse desdenho, habitualmente se conclui que a frase possui sua importância pela resposta de Dante no tempo passado (“evadia”), que logo em seguida irá causar o desespero de Cavalcante, por achar que seu filho naquele momento está morto. Há de se considerar, porém, o desdém de Guido, apontado por Dante, se tratar do estilo literário. Guido é um poeta do estilo chamado Dolce Stil Nuovo.

O estilo, desenvolvido na segunda metade do século XIII, faz uma busca por uma poesia sincera de sentimentos, sem artificialidade e com uma nova idéia de nobreza. Criticavam os trovadores e seus sentimentos considerados artificiais, “hipócritas”, em que cantavam os amores a uma mulher alheia. Em um momento em que a aristocracia está decaindo e a burguesia começa a surgir com força no comércio, a nobreza está na moralidade e a mulher ideal é a mulher pura e íntegra. Dante em sua juventude escreveu poemas dentro desse estilo, o que inclui aí seu Vida Nova.

A evolução na poesia dantesca se dá no que se refere a retomada da poesia clássica, principalmente romana. A importância que Virgílio possui na Divina Comédia e o respeito ao qual Dante demonstra por ele mostra a grande importância de Virgílio na formação de Dante no decorrer de sua vida. Quando Dante diz que Guido desdenhou de Virgílio, está afirmando que Guido não se dedicou a poesia clássica, permanecendo sua obra no stil nuovo.

Retomando o canto, a reação de Cavancante aponta mais coisas sobre ele (Versos 67-72):

“Súbito ereto gritou: ‘Evadia?
Disseste? Então não vive? Então não mais
O doce lume os olhos lhe embacia?’

Quando foi percebendo que demais
Demorada ficava-lhe a resposta,
Caiu supino e não mostrou-se mais.”



Cavalcante faz uma série de três perguntas logo que ouve a resposta de Dante, cada vez mais aumentando o tom dramático da situação, até que faz a pergunta mais dramática e sensível “Então não mais o doce lume os olhos lhe embacia?”. O fato é que ele enxerga o filho morto em um futuro distante, mas não sabe em que momento isso ocorre. E essa sua paixão, não apenas pelo filho, mas pela vida terrena, elevados ao seu ponto mais extremo, faz de sua pena algo potencializado, ampliado.

E essa transcendência das agruras humanas para o além faz dele um teatro para o drama humano. Dante Alighieri se torna então um cristão que transforma o palco do divino em algo essencialmente humano. E é isso que torna sua poesia diferenciada das outras de seu período: no palco do divino, os humanos estão lá, aquele que lê a Comédia, enxerga sua própria imagem ali, reforçada pela nobreza de Farinata, pela dor de Cavalcante, ou pela adoração de Estácio por Virgílio (XXI do purgatório).

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