sábado, 20 de fevereiro de 2010

Resenha sobre a obra "o sagrado e o profano"

Localização da obra:

Eliade, Mircea. O sagrado e o profano – a essência das religiões. São Paulo: Martins Fontes. 1° edição, 2001, 191 páginas.

Características da obra:

A obra supra citada possui como uma das características principais a busca de uma herança, seja das sociedades arcaicas ou das mais contemporâneas – de certo modo – em relação aos mitos e ações dos seres primordiais (deuses, heróis, etc.), a visão cíclica da história para essas sociedades, em que suas ações são inspiradas nas ações primordiais dos deuses e dos heróis, as relações entre o ser humano e a natureza e suas significações e a constante oposição entre o moderno e arcaico, seja, em relação ao homem, as religiões, aos mitos, etc., sem mencionar a questão do sagrado e do profano.

Sobre o autor:

Mircea Eliade nasceu no ano de 1907 em Bucareste, onde realizou seus estudos universitários, formando-se em Filosofa. Depois disso, partiu para Índia, tendo ali estudado o sânscrito e as filosofias do sudeste asiático.

Apartir desses estudos, especialmente a respeito da ioga, pode realizar sua tese de doutoramento publicada em 1936. A partir de então, Eliade adquiriu renome como professor de História das Religiões, tendo lecionado na Universidade de Bucareste, na École des Hautes Études de Paris, no Instituto do Extremo Oriente de Roma, no Instituto Jung de Zurique e na Universidade de Chicago. Foi também Doutor Honoris Causa de numerosas universidades de todo o mundo. Premiado em 1977 pela Academia Francesa, recebeu a Legião de Honra.

Eliade também trabalhou como adido cultural e de imprensa nas representações diplomáticas romenas em Londres e Lisboa até 1945. Posteriormente, estabeleceu-se em Paris, e, finalmente, em Chicago, onde faleceu em 1986.

Propostas da obra:

Aparece entre tantas outras a proposta de entendimento dos mitos e mitologias criadas pelas velhas civilizações, sociedades, tribos e a grande importância que essas formas de relacionamento dos seres humanos com a natureza, com a história, com o conhecimento, etc., possibilitaram uma melhor capacidade de explicação do mundo, da vida e da morte.

A própria visão do homem como ser participante de um conjunto maior – visão não compartilhada pelo homem moderno –, no caso, o que o autor denomina de “o cosmos” necessitava de um entendimento e de uma inter-relação do ser humano com a natureza e os fenômenos naturais, dando espaço para a criação de cosmogonias e cosmologias.

E, por último, a grande importância que uma obra como essa possui para uma maior compreensão – no meu caso como potencial historiador – do homem em sua complexidade, pois, a religião, e principalmente, a religiosidade são parte fulcral para o entendimento do homem e da sociedade, seja ela a arcaica ou a moderna.

Obra:

Essa obra de Mircea Eliade inicia-se com uma discussão referente ao próprio título do livro, que é a questão do sagrado e do profano e qual ou quais fatores são definidores dessas classificações. Sobre tais pontos o autor apresenta a concepção dos povos arcaicos da seguinte maneira, o sagrado – revela a realidade absoluta e torna possível a orientação – é tudo aquilo já consagrado aos deuses ou realizado pelos heróis civilizadores in illo tempore, em outras palavras tudo aquilo já cosmicizado, que é real e faz parte do “cosmos”. O profano é tudo aquilo que escapa dessa lógica, e que em certo sentido não está no real nem no “cosmos”, e sim, ainda se encontra no “caos”, ou seja, fora da ação primordial dos deuses sobre a “coisa” conhecida pelo ser humano, portanto, podendo fazer parte do sagrado quando realizado o ritual ou ato de passagem – imitando os deuses – que possibilite inclui-lo no “cosmos”. Porém, como explicita o autor

é preciso acrescentar que uma tal existência profana jamais se encontra em estado puro. Seja qual for o grau de dessacralização do mundo a que tenha chegado o homem que optou por uma vida profana não consegue abolir completamente o comportamento religioso[1].

A formulação desta lógica mental por parte das sociedades arcaicas leva os seres humanos a uma visão da história de forma cíclica e teleológica – em grande parte dessas sociedades –, pois, entendem que o mundo só pode ser conhecido e vivido se primeiramente for conhecido os atos dos deuses e dos heróis sobre essas mesmas “coisas” e que o organismo vivo ou “cosmos” possui um começo, um final, um recomeço, e assim por diante, sendo o seu início a forma mais pura, como atesta Eliade (...) a Vida não pode ser reparada, mas somente recriada pela repetição simbólica da cosmogonia, pois, como já dissemos a cosmogonia é o modelo exemplar de toda criação[2].

O ser humano tende a sacralizar tudo o que existe, inclusive o espaço e o tempo como forma de inserir-se no “cosmos”. Essa busca incessante do ser humano de consagrar aos deuses suas vidas levou-os a organizarem o tempo de forma lógica para que através de festas realizadas periodicamente pudessem rememorar os feitos de in illo tempore e em relação ao espaço a construir templos, igrejas, etc,. como forma de consagrar aquele local aos deuses e por extensão sua cidade ou aldeia – chegando a sacralização de sua moradia – para poder estar inserido no centro do mundo ou “cosmos”. Essa mesma concepção não é compartilhada pelo homem (ser humano) moderno ou a-histórico, pois, esse tende a dessacralizar tudo o que existe por estar fixado em outra lógica de vida, em geral.

O tempo tem, assim como o espaço, que ser consagrado por meio de um ritual que possa ser recuperado de tempos em tempos para uma renovação do mundo e do próprio tempo considerado sagrado, não participando da duração temporal que o precede e o sucede. O tempo sagrado é por excelência aquele original e primordial e por conta de um regresso simbólico é que o ser humano torna-se contemporâneo dos deuses e dos atos primeiros da criação. No entanto, ainda existe o tempo profano ou o tempo corrente da vida que não é consagrado, e, além disso, o homem (ser humano) a-religioso que concebe o tempo sempre como uma experiência puramente humana onde aos deuses não é atribuída nenhuma participação.

Há, no entanto, certas diferenças entre religiões mais complexas e que abordam o tempo como tempo histórico e não como tempo cósmico, no caso do judaísmo e do cristianismo, este último indo ainda mais longe ao santificar o tempo histórico com a encarnação do Deus na pessoa de Jesus Cristo e dessa forma saindo da esfera mítica e adentrando na esfera histórica no que concerne à realização dos rituais litúrgicos de consagração cristã, portanto, a questão do “eterno retorno” não se aplica nesses casos como nas religiões das sociedades arcaicas.

Uma outra fonte – e talvez onde o homem arcaico mais tenho bebido – e a relação do mesmo com a natureza e com o cosmo (astros celestes) como é muito bem exposto na obra. A natureza tende a ser sacralizada pelo ser humano por sua força e pela aparência misteriosa dos seus acontecimentos como erupções vulcânicas, terremotos, tempestades, etc., esses fatos eram relacionados com a irá dos deuses por uma desobediência humana e do afastamento do homem em relação aos deuses ou Deus como é atestado no velho testamento da bíblia cristã em que Jeová pune o povo escolhido por diversas vezes em diversas ocasiões onde o povo de Israel se afastava dos mandamentos de Jeová, por exemplo, a história de Noé e do dilúvio.

Em relação aos astros e seus significados mítico-religiosos o ser humano se afastou gradativamente dessas divindades – o inverso também é fato –, pois, como bem claro é exposto na obra através de inúmeros exemplos de diversas cosmologias após terem criado o universo e o mundo estes deuses que são identificados com os seres celestes (astros) retiraram-se da Terra e regressaram para suas moradas no céu, porém, deixaram na Terra seus filhos que pouco a pouco acuparam os espaços deixados no coração e mente dos seres humanos, entretanto, esses filhos são identificados muito mais com a vida mundana do que com a vida cósmica. Isso não quer dizer que os deuses celestes foram esquecidos, mas sim, afastados do dia-a-dia humano e conservado com grande força por meio do simbolismo, principalmente, nas religiões e cosmologias politeístas.

O simbolismo presente na natureza foi, é e aparentemente será uma grande fonte para elucubrações humanas referente a explicações do mundo por uma forma religiosa, isso fica claro na passagem cristã sobre o batismo em que o homem renasce para uma nova vida após a sua imersão nas águas – símbolo tanto da morte como da vida. Contudo, é preciso perceber que desde o final da “idade média” o ser humano caminha pra uma dessacralização da natureza.

“O primeiro fato com que deparamos ao adotar a perspectiva do homem religioso das sociedades arcaicas é que o mundo existe porque foi criado pelos deuses, e que a própria existência do Mundo quer dizer alguma coisa, que o Mundo não é opaco, que não é uma coisa inerte, sem objetivo e sem significado. Para o homem religioso, o Cosmos “vive” e “fala”. A própria vida do Cosmos é uma prova de sua santidade, pois ele foi criado pelos deuses e os deuses mostram-se aos homens por meio da vida cósmica”.

É preciso perceber essa perspectiva tão presente no homem arcaico e que está tão longe do homem moderno que é a de perceber que o homem (ser humano) faz parte de um todo maior e de um sistema vivo que o autor chama de “cosmos”. Outros fatores de grande importância para o homem arcaico são relativos aos ritos de passagem como o nascimento, o crescimento físico e intelectual (criança, rapaz, homem no caso masculino e criança, moça, mulher no caso feminino), casamento e morte, e que com o avanço racional e tecnológico foi fortemente deixado de lado pelo homem moderno e a-religioso. Um fator também de grande importância é o já mencionado fator da habitação, seja ele, o corpo humano, a casa, o templo ou a cidade que deve ser consagrada aos deuses e prioritariamente deve oferecer uma passagem (abertura) para a comunicação com o transcendente, ou seja, com o campo cósmico.

Segundo Mircea Eliade o homem a-religioso só aceita um modelo de humanidade dentro da condição humana da existência, sendo o sagrado um empecilho para obtenção da liberdade da humanidade, porém, segundo o autor até mesmo esse homem está impregnado de concepções religiosas degeneradas ou inconscientes mesmo que em pequena proporção. Portanto, a religiosidade faz parte do homem enquanto ser complexo.

Comentários críticos sobre a obra:

A obra “o sagrado e o profano” de Mircea Eliade é muito importante para uma melhor compreensão da circularidade existente nas sociedades arcaicas em relação aos rituais e atos que caracterizam a consagração dos objetos, do espaço, do tempo, da habitação, etc., - mesmo que sem proximidade espacial e física dessas sociedades – aos deuses e como a questão do sagrado e do profano era abordada pelos antigos e quais as concepções e determinações para que algo fosse considerado sagrado (real, cósmico) ou profano (irreal, caótico). Além disso, é importante para o historiador pelo fato de que aborda um aspecto da vida humana em que cada vez mais e renegada pelo homem que é a questão religiosa enquanto forma efetiva e material da complexidade humana, pois, nos dias de hoje a religiosidade é vista como irracionalidade do ser e de fuga da realidade, quando na verdade se insere na perspectiva de explicação do mundo como tantas outras formas.

No entanto, é preciso para o pesquisador – e talvez essa não seja nem a preocupação do autor – procurar entender essa relação do homem com a natureza – principalmente, na relação do homem moderno – em contato com a religião e a política, a religião e a economia, a religião e o poder, pois, todas essas são partes que se confundem na relação societária em determinadas circunstâncias.



[1] Eliade, Mircea. O sagrado e o profano – a essência das religiões. São Paulo: Martins Fontes, 2001. p.27.

[2] Idem, p.74.

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