Localização da obra:
Eliade, Mircea. O sagrado e o profano – a essência das religiões. São Paulo: Martins Fontes. 1° edição, 2001, 191 páginas.
Características da obra:
A obra supra citada possui como uma das características principais a busca de uma herança, seja das sociedades arcaicas ou das mais contemporâneas – de certo modo – em relação aos mitos e ações dos seres primordiais (deuses, heróis, etc.), a visão cíclica da história para essas sociedades, em que suas ações são inspiradas nas ações primordiais dos deuses e dos heróis, as relações entre o ser humano e a natureza e suas significações e a constante oposição entre o moderno e arcaico, seja, em relação ao homem, as religiões, aos mitos, etc., sem mencionar a questão do sagrado e do profano.
Sobre o autor:
Mircea Eliade nasceu no ano de 1907 em Bucareste, onde realizou seus estudos universitários, formando-se em Filosofa. Depois disso, partiu para Índia, tendo ali estudado o sânscrito e as filosofias do sudeste asiático.
Apartir desses estudos, especialmente a respeito da ioga, pode realizar sua tese de doutoramento publicada em
Eliade também trabalhou como adido cultural e de imprensa nas representações diplomáticas romenas em Londres e Lisboa até 1945. Posteriormente, estabeleceu-se em Paris, e, finalmente, em Chicago, onde faleceu em 1986.
Propostas da obra:
Aparece entre tantas outras a proposta de entendimento dos mitos e mitologias criadas pelas velhas civilizações, sociedades, tribos e a grande importância que essas formas de relacionamento dos seres humanos com a natureza, com a história, com o conhecimento, etc., possibilitaram uma melhor capacidade de explicação do mundo, da vida e da morte.
A própria visão do homem como ser participante de um conjunto maior – visão não compartilhada pelo homem moderno –, no caso, o que o autor denomina de “o cosmos” necessitava de um entendimento e de uma inter-relação do ser humano com a natureza e os fenômenos naturais, dando espaço para a criação de cosmogonias e cosmologias.
E, por último, a grande importância que uma obra como essa possui para uma maior compreensão – no meu caso como potencial historiador – do homem em sua complexidade, pois, a religião, e principalmente, a religiosidade são parte fulcral para o entendimento do homem e da sociedade, seja ela a arcaica ou a moderna.
Obra:
Essa obra de Mircea Eliade inicia-se com uma discussão referente ao próprio título do livro, que é a questão do sagrado e do profano e qual ou quais fatores são definidores dessas classificações. Sobre tais pontos o autor apresenta a concepção dos povos arcaicos da seguinte maneira, o sagrado – revela a realidade absoluta e torna possível a orientação – é tudo aquilo já consagrado aos deuses ou realizado pelos heróis civilizadores in illo tempore, em outras palavras tudo aquilo já cosmicizado, que é real e faz parte do “cosmos”. O profano é tudo aquilo que escapa dessa lógica, e que em certo sentido não está no real nem no “cosmos”, e sim, ainda se encontra no “caos”, ou seja, fora da ação primordial dos deuses sobre a “coisa” conhecida pelo ser humano, portanto, podendo fazer parte do sagrado quando realizado o ritual ou ato de passagem – imitando os deuses – que possibilite inclui-lo no “cosmos”. Porém, como explicita o autor
é preciso acrescentar que uma tal existência profana jamais se encontra em estado puro. Seja qual for o grau de dessacralização do mundo a que tenha chegado o homem que optou por uma vida profana não consegue abolir completamente o comportamento religioso[1].
A formulação desta lógica mental por parte das sociedades arcaicas leva os seres humanos a uma visão da história de forma cíclica e teleológica – em grande parte dessas sociedades –, pois, entendem que o mundo só pode ser conhecido e vivido se primeiramente for conhecido os atos dos deuses e dos heróis sobre essas mesmas “coisas” e que o organismo vivo ou “cosmos” possui um começo, um final, um recomeço, e assim por diante, sendo o seu início a forma mais pura, como atesta Eliade (...) a Vida não pode ser reparada, mas somente recriada pela repetição simbólica da cosmogonia, pois, como já dissemos a cosmogonia é o modelo exemplar de toda criação[2].
O ser humano tende a sacralizar tudo o que existe, inclusive o espaço e o tempo como forma de inserir-se no “cosmos”. Essa busca incessante do ser humano de consagrar aos deuses suas vidas levou-os a organizarem o tempo de forma lógica para que através de festas realizadas periodicamente pudessem rememorar os feitos de in illo tempore e em relação ao espaço a construir templos, igrejas, etc,. como forma de consagrar aquele local aos deuses e por extensão sua cidade ou aldeia – chegando a sacralização de sua moradia – para poder estar inserido no centro do mundo ou “cosmos”. Essa mesma concepção não é compartilhada pelo homem (ser humano) moderno ou a-histórico, pois, esse tende a dessacralizar tudo o que existe por estar fixado em outra lógica de vida, em geral.
O tempo tem, assim como o espaço, que ser consagrado por meio de um ritual que possa ser recuperado de tempos em tempos para uma renovação do mundo e do próprio tempo considerado sagrado, não participando da duração temporal que o precede e o sucede. O tempo sagrado é por excelência aquele original e primordial e por conta de um regresso simbólico é que o ser humano torna-se contemporâneo dos deuses e dos atos primeiros da criação. No entanto, ainda existe o tempo profano ou o tempo corrente da vida que não é consagrado, e, além disso, o homem (ser humano) a-religioso que concebe o tempo sempre como uma experiência puramente humana onde aos deuses não é atribuída nenhuma participação.
Há, no entanto, certas diferenças entre religiões mais complexas e que abordam o tempo como tempo histórico e não como tempo cósmico, no caso do judaísmo e do cristianismo, este último indo ainda mais longe ao santificar o tempo histórico com a encarnação do Deus na pessoa de Jesus Cristo e dessa forma saindo da esfera mítica e adentrando na esfera histórica no que concerne à realização dos rituais litúrgicos de consagração cristã, portanto, a questão do “eterno retorno” não se aplica nesses casos como nas religiões das sociedades arcaicas.
Uma outra fonte – e talvez onde o homem arcaico mais tenho bebido – e a relação do mesmo com a natureza e com o cosmo (astros celestes) como é muito bem exposto na obra. A natureza tende a ser sacralizada pelo ser humano por sua força e pela aparência misteriosa dos seus acontecimentos como erupções vulcânicas, terremotos, tempestades, etc., esses fatos eram relacionados com a irá dos deuses por uma desobediência humana e do afastamento do homem em relação aos deuses ou Deus como é atestado no velho testamento da bíblia cristã em que Jeová pune o povo escolhido por diversas vezes em diversas ocasiões onde o povo de Israel se afastava dos mandamentos de Jeová, por exemplo, a história de Noé e do dilúvio.
Em relação aos astros e seus significados mítico-religiosos o ser humano se afastou gradativamente dessas divindades – o inverso também é fato –, pois, como bem claro é exposto na obra através de inúmeros exemplos de diversas cosmologias após terem criado o universo e o mundo estes deuses que são identificados com os seres celestes (astros) retiraram-se da Terra e regressaram para suas moradas no céu, porém, deixaram na Terra seus filhos que pouco a pouco acuparam os espaços deixados no coração e mente dos seres humanos, entretanto, esses filhos são identificados muito mais com a vida mundana do que com a vida cósmica. Isso não quer dizer que os deuses celestes foram esquecidos, mas sim, afastados do dia-a-dia humano e conservado com grande força por meio do simbolismo, principalmente, nas religiões e cosmologias politeístas.
O simbolismo presente na natureza foi, é e aparentemente será uma grande fonte para elucubrações humanas referente a explicações do mundo por uma forma religiosa, isso fica claro na passagem cristã sobre o batismo em que o homem renasce para uma nova vida após a sua imersão nas águas – símbolo tanto da morte como da vida. Contudo, é preciso perceber que desde o final da “idade média” o ser humano caminha pra uma dessacralização da natureza.
“O primeiro fato com que deparamos ao adotar a perspectiva do homem religioso das sociedades arcaicas é que o mundo existe porque foi criado pelos deuses, e que a própria existência do Mundo quer dizer alguma coisa, que o Mundo não é opaco, que não é uma coisa inerte, sem objetivo e sem significado. Para o homem religioso, o Cosmos “vive” e “fala”. A própria vida do Cosmos é uma prova de sua santidade, pois ele foi criado pelos deuses e os deuses mostram-se aos homens por meio da vida cósmica”.
É preciso perceber essa perspectiva tão presente no homem arcaico e que está tão longe do homem moderno que é a de perceber que o homem (ser humano) faz parte de um todo maior e de um sistema vivo que o autor chama de “cosmos”. Outros fatores de grande importância para o homem arcaico são relativos aos ritos de passagem como o nascimento, o crescimento físico e intelectual (criança, rapaz, homem no caso masculino e criança, moça, mulher no caso feminino), casamento e morte, e que com o avanço racional e tecnológico foi fortemente deixado de lado pelo homem moderno e a-religioso. Um fator também de grande importância é o já mencionado fator da habitação, seja ele, o corpo humano, a casa, o templo ou a cidade que deve ser consagrada aos deuses e prioritariamente deve oferecer uma passagem (abertura) para a comunicação com o transcendente, ou seja, com o campo cósmico.
Segundo Mircea Eliade o homem a-religioso só aceita um modelo de humanidade dentro da condição humana da existência, sendo o sagrado um empecilho para obtenção da liberdade da humanidade, porém, segundo o autor até mesmo esse homem está impregnado de concepções religiosas degeneradas ou inconscientes mesmo que em pequena proporção. Portanto, a religiosidade faz parte do homem enquanto ser complexo.
Comentários críticos sobre a obra:
A obra “o sagrado e o profano” de Mircea Eliade é muito importante para uma melhor compreensão da circularidade existente nas sociedades arcaicas em relação aos rituais e atos que caracterizam a consagração dos objetos, do espaço, do tempo, da habitação, etc., - mesmo que sem proximidade espacial e física dessas sociedades – aos deuses e como a questão do sagrado e do profano era abordada pelos antigos e quais as concepções e determinações para que algo fosse considerado sagrado (real, cósmico) ou profano (irreal, caótico). Além disso, é importante para o historiador pelo fato de que aborda um aspecto da vida humana em que cada vez mais e renegada pelo homem que é a questão religiosa enquanto forma efetiva e material da complexidade humana, pois, nos dias de hoje a religiosidade é vista como irracionalidade do ser e de fuga da realidade, quando na verdade se insere na perspectiva de explicação do mundo como tantas outras formas.
No entanto, é preciso para o pesquisador – e talvez essa não seja nem a preocupação do autor – procurar entender essa relação do homem com a natureza – principalmente, na relação do homem moderno – em contato com a religião e a política, a religião e a economia, a religião e o poder, pois, todas essas são partes que se confundem na relação societária em determinadas circunstâncias.
MUITO BOOM' :)
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